quarta-feira, 27 de abril de 2011

Funcionária do mês



Cláudia pensou que estaria mais nervosa, no entanto, quando a dinâmica de grupo começou, sentiu um certo alívio e passou a imaginar sua resposta à seguinte pergunta:
— Se você fosse um animal, que animal seria?
A entrevistadora poderia ter planejado algo menos óbvio. Terminada aquela etapa, só faltaria ela querer que desenhassem uma árvore. Quem não sabia que as árvores devem sempre ser desenhadas com raízes, solo e frutas? Se alguém não soubesse disso, bom, azar! Cláudia sabia.
O cargo que pleiteava na empresa de softwares era de gerente de marketing. Em seu outro emprego, apesar de sua formação na área, ela não passava de uma assistente, mas sempre soube que tinha potencial para ir mais longe.
— Gato. Eu seria um gato – respondeu a candidata sem hesitar. – Ora, todos responderam cachorros porque são leais, águias porque voam alto... Tudo muito previsível. “Serei diferente e autêntica” – pensou.
— Por que um gato?
— Porque gatos são independentes e pró-ativos. Se querem algo, vão atrás e não ficam esperando que alguém lhes dê ordens.
Na verdade, Cláudia nunca fora muito fã de cães. Cães são carentes, assim como as pessoas. O fato era que, apesar do carisma, que despertava nos colegas, ela não era mesmo muito chegada a pessoas.
Os outros candidatos eram fortes: muitos anos de experiência na área, fluentes em várias línguas, conhecimentos diversos... Cláudia havia se formado há pouco mais de dois anos e falava um inglês razoável.
Segunda etapa: teste psicológico aplicado por uma empresa de consultoria estrangeira. De certo era um daqueles testes que detalham o perfil do candidato, o tipo de coisa que não dá para burlar. Cláudia respondeu centenas de perguntas sem muita confiança de que passaria daquela fase.
Uma semana se passou e Cláudia foi aprovada para a vaga de gerente. Mal podia acreditar que havia superado todos os outros candidatos. O próximo passo seria preparar-se para começar em seu novo emprego e encarar os novos desafios que a esperavam.
Em seu primeiro dia no novo cargo, Cláudia foi apresentada à equipe. Abaixo dela havia um grupo formado por cinco rapazes e três moças, sendo que pelo menos quatro deles aparentavam ser mais velhos que ela. A nova gerente era muito segura de si, por isso, não achava que o detalhe da idade seria um empecilho no relacionamento com seus funcionários.
A novata não poderia estar mais enganada: não só sentiu que a idade era um problema, como o fato de ela ter vindo de outra empresa também não agradava seus colegas. Aparentemente, muita gente se ressentia pelo fato da empresa não ter feito uma seleção interna para o cargo que seria ocupado por Cláudia.
Muitas reuniões, almoços e dinâmicas de grupo depois, Cláudia ainda sentia uma certa hostilidade por parte de seus subordinados. O desgaste físico e mental ao qual estava sendo submetida começava a aparecer em sua expressão desmotivada.
Os amigos mais próximos estavam preocupados com seu estado, por isso de tempos em tempos alguém sempre aparecia em seu apartamento ou a chamava para um jantar. Nada disso surtia efeito, até que uma amiga lhe sugeriu um livro:
— Você já leu “Reabilitação para cães rebeldes – Um guia completo”?
— Porque eu leria um livro desses se nem cachorro eu tenho? Meu problema é outro , Rita.
— Estou falando sério. Eu comprei o livro por causa dos meus cachorros, mas eu vi uma entrevista com o autor e ele disse que algumas pessoas adaptaram suas dicas na educação de seus filhos. Ele mencionou que algumas regras básicas sobre os cães podem ser aplicadas aos seres humanos e se você vir o trabalho dele com os Pit Bulls e Rotweillers, vai entender o que estou dizendo.
Embora um pouco descrente que a sugestão de sua amiga daria certo, Cláudia comprou o tal livro e se surpreendeu com tudo que leu. Já no primeiro capítulo, sobre o líder da matilha, ela se convencera que deveria ao menos tentar usar algumas das sugestões do adestrador de feras, uma vez que tudo mais que ela havia tentado não apresentara efeito algum.
Semana a semana, capítulo a capítulo, Cláudia devorava o livro e aplicava o que aprendia em sua empresa. Qual não foi seu espanto ao perceber que, ao final de pouco mais de dois meses, o clima entre ela e seus funcionários havia mudado de forma significativa? Com exceção de Lívia e Eduardo, todos os outros membros de sua equipe pareciam estar em sintonia com os objetivos da companhia e encontravam-se bem motivados.
— Bom, dois cachorrinhos rebeldes em oito não é tão ruim. O livro ainda não terminou, então, ainda há esperança para estes aqui – pensou a executiva enquanto olhava o organograma da empresa onde se lia os nomes de Lívia e Eduardo.
Cláudia terminara o último capítulo de seu guia para reabilitação de cães e finalmente tudo estava claro. Sabia o que deveria fazer em relação aos dois funcionários que não haviam respondido ao seu “ treinamento” até então.
****
Para quem nunca gostou muito de cachorros e nem de pessoas, Cláudia estava surpresa que um livro pelo qual ela não dava nada poderia resolver seus problemas de forma tão eficaz. Só lhe restava agora enviar um e-mail ao autor, agradecendo por todas as dicas e soluções que ele tão gentilmente dividira com a humanidade:
“ Caro autor,
Embora eu mesma não tenha cachorros, devo confessar que seu livro me inspirou e me ajudou muito. Em seu último capítulo, onde explica que alguns cães são irrecuperáveis e que em casos extremos a única saída é o sacrifício, eu cheguei a hesitar quando uma atitude mais drástica se fez necessária. Mesmo assim, sabendo o que seria melhor para minha matilha, eu resolvi ir até o fim.
Muito obrigada.
Claúdia “
Assim, em meio ao sangue dos dois funcionários que havia acabado de matar com cortes de estilete em suas jugulares, a gerente enviou o e-mail e sorriu. Tinha a convicção de que havia feito a coisa certa, afinal, pessoas são como cães e ela havia feito o que qualquer líder de uma matilha também faria.

Um comentário:

malu disse...

Uau! Amei o final!
ótimo texto. Bom que vc voltou a postar.
Um beijo